É preciso escrever os detalhes, antes que a memória deixe este assunto no esquecimento ou na irrelevância como tantos outros...
- Eu nasci princesa da Birmânia. Era pôr-do-sol quando minha mãe, me carregando no colo, escondeu-se numa espécie de armário de alvenaria com cortinas, um compartimento secreto, com uma pequena janela com grades grossas e sujas. Tudo era laranja no oriente. Mas os chineses mesmo assim nos alcançaram. Após assassinarem meu pai, que havia ficado imóvel com sua honra no salão principal, em pé à frente de seu trono, abriram uma fresta da cortina no lado onde estava sentada minha mãe e, de um golpe, cortaram-lhe o pescoço. Eu, enrolada em nobres panos bordados com fios de ouro, acordei do outro lado do compartimento. Demorou para que me achassem. Passei os anos seguintes num lugar onde era constantemente vigiada, prisioneira dos assassinos de meus pais. Aos doze anos, numa ocasião em que meu carcereiro portava uma faca, pude com esforço tomá-la e, finalmente, fincá-la fundo em seu coração. Fugi. Fui acolhida provavelmente por monges, que me devolveram aos poucos a memória de meus pais, e da dinastia de minha família. Quando a ocasião política foi propícia, subi de volta ao trono, como única herdeira viva da dinastia.
Tudo é laranja no oriente. O inglês se cala. Com um leve gesto de cabeça, eu o dispenso, para que leve minha história ao ocidente. Me sento à varanda e me despeço do sol.